A tecnologia não acabará com os empregos, ela os modificará

Noticia
Prever o futuro é sempre tarefa complexa, ainda mais em um mundo de transformações tecnológicas e sociais aceleradas. Há menos de 20 anos seria difícil imaginar drones, redes sociais onipresentes ou que teríamos um supercomputador no bolso da calça. Não havia ainda Orkut, nem selfie, nem “nuvem”.
Segundo pesquisa da Statista, em 2009 apenas 0,7% do tráfego da internet vinha de dispositivos móveis, enquanto em 2018 mais de 52% de todo o tráfego da web se origina de celulares.
Se hoje temos coisas inimagináveis, também é possível que não tenhamos ainda coisas que imaginávamos no passado, como carros voadores ou robôs que fazem serviços domésticos.
Carros voadores não existem ainda no nosso dia a dia, mas já estão em testes sob a forma de drones tripulados em diversos países. Robôs já ocupam postos em indústrias e no atendimento a clientes e muito mais está vindo por aí.
Na Inglaterra, 28% dos trabalhadores afirmam que máquinas já executam funções administrativas que antes eram executadas por pessoas, segundo pesquisa recentemente divulgada pela empresa de pesquisa GQR, que entrevistou 2.145 trabalhadores daquele país.
Mas em um mundo com cada vez mais tecnologia e automação, qual será o papel que caberá aos trabalhadores de carne e osso? Quem terá emprego e dinheiro para consumir tanta tecnologia?
O professor da FGV e pesquisador Alexandre Correa Lima afirma que não há como prever com exatidão a configuração desse novo mercado de trabalho, porque existem muitas tendências simultâneas, intensas e disruptivas, que constroem o novo através da destruição do velho.
“Nossa tendência é projetar o futuro utilizando a régua do passado, o que é tão perigoso quanto querer dirigir olhando apenas o espelho retrovisor. As mudanças assustam, porque perdemos as certezas que ajudam a nos orientar pelos labirintos do mundo, mas as mudanças são inevitáveis. E se não é possível fugir é melhor abraçá-las”.
Segundo Alexandre Correa, que também ministra palestras sobre inovação e tendências, a sensação que temos é que todos os empregos serão dizimados, mas o mais provável é que tenhamos uma migração de matriz econômica, como já ocorreu no passado, quando os países passaram de uma economia agrária para industrial, e mais recentemente quando passaram para uma economia baseada no setor de serviços.
“Com a tecnologia, um monte de coisa se digitalizou, perdeu valor monetário. Pouca gente compra CD de música ou revistas impressas, mas ao mesmo tempo um monte de outras coisas ganhou densidade. Todo mundo tomava cafezinho de R$1 na padaria, mas agora pessoas fazem fila para comprar um Frapuccino de R$15 em franquias americanas de café. Os jovens não compram mais um CD de R$20, mas estão lotando festivais de música com ingressos a R$400. A Economia não acaba, ela se transfigura.”
Na Inglaterra, 8% dos profissionais afirmam já trabalhar em conjunto com máquinas ou robôs, mesmo percentual que afirma que a Inteligência Artificial já está em uso no ambiente de trabalho. E é um número que não para de crescer.
Esse cenário preocupa também os sindicatos de trabalhadores da Inglaterra. Pouco depois da divulgação da pesquisa, eles emitiram um conjunto de propostas para regulamentar o mercado de trabalho do futuro, desde a imposição de freios à adoção de novas tecnologias, até a implantação da semana de trabalho de apenas quatro dias, já que no futuro será possível produzir mais em menos tempo.
Talvez isso soe um pouco utópico, mas essa é uma promessa antiga, de que a tecnologia nos libertaria do enfado de tarefas rotineiras e repetitivas.
A visão dos ingleses é de um otimismo moderado, sabem dos desafios que as novas tecnologias impõem, mas acham que os trabalhadores que forem capazes de se manter capacitados encontrarão novos papeis para exercer. Os empregos não desaparecerão, apenas mudarão sua natureza.
“Quando a gente olha em retrospectiva a saga humana na Terra, entre indas e vindas e alguns revezes pontuais, melhoramos consideravelmente nosso padrão de vida. Eu alimento a crença de que continuaremos essa trajetória ascendente. Mas ao mesmo tempo eu acho que os novos tempos podem sim ser cruéis com aqueles profissionais que se acomodarem e não tiverem a capacidade de se reinventar ou a disposição de continuar aprendendo eternamente. Porque num mundo em que tudo muda, toda hora, você só se mantém relevante se for um eterno aprendiz.” – finaliza o palestrante Alexandre Correa.